domingo, 15 de abril de 2012

A teoria do self gestáltica: entre a fenomenologia e o pragmatismo

O livro Gestalt-terapia de Perls, Hefferline e Goodman de 1951 teve sua parte teórica construída a partir dos esboços teóricos de Fritz Perls relidos e aprimorados pelo escritor e crítico social Paul Goodman. O objetivo de Goodman foi apresentar, a partir das discussões iniciais de Perls, uma nova proposta de compreensão da natureza humana que integre a escola gestáltica e as teorias neo-psicanalíticas. Porém, como ferramenta crítica para essa análise, Goodman propôs uma integração da fenomenologia de Husserl e do Pragmatismo de John Dewey para recriar a concepção de self dentro da perspectiva da gestalt-terapia. O objetivo deste trabalho é apresentar o modo como Goodman vai interpretar a fenomenologia a partir de uma leitura pragmática para propor a noção de “sistema-self” como o sistema de contatos que se manifesta no campo organismo/ambiente. Sendo assim, essa leitura pragmatista da fenomenologia vai possibilitar dois pontos fundamentais: 1) ao invés de uma compreensão transcendental do ego (tal como proposto por Husserl), ele vai propor uma análise exaustiva das estruturas parciais do self, a saber o id, o ego e a personalidade. Estas estruturas parciais são entendidas como diferentes pontos de vista (ou perfis) para analisar a experiência, sem precisar recair em uma compreensão dicotômica ou psicologista. E 2) uma interpretação da ideia de contato já cunhada por Fritz Perls em seu livro anterior a partir da leitura fenomenológica da temporalidade. Sendo assim, o fenomenológico da abordagem gestáltica, nessa compreensão, não seria a construção de um método terapêutico, mas sim a base para se pensar a dinâmica do self e suas estruturas parciais. A partir da lente pragmática, há a desconstrução da busca pelo fundamento do conhecimento tão cara a Husserl para que se possa apreender a dinâmica constantemente transformadora da experiência humana e aplica-la ao campo da psicoterapia, da educação e da política. Como conclusão, acreditamos na pertinência dessa teoria, e que a teoria do self gestáltica, por mais que não tenha sido suficientemente reconhecida pela comunidade dos gestalt-terapeutas, pode ser uma ferramenta essencial para a construção da teoria e prática da abordagem gestáltica nos vários campo de atuação do psicólogo.

Este é o resumo do trabalho que será apresentado no EFHEP:
Encontro de Filosofia, História e Epistemologia da Psicologia
www.efhep.com
Será dia 19/04 no auditório A4 da UNIFOR!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Da estética e da ética do (campo) relacional

            Muitas foram as tentativas de tornar científico o campo da relação. Se há algo de sublime no humano, o campo das relações jamais poderá ser resumido ao coerente. Muito pelo contrário, o campo do humano é o campo do ethos anárquico, da impossibilidade e da reconstrução. Toda forma de poética, pede um conflito intenso e pede a resolução (pelo menos parcial) de um problema. Um problema que sempre escapa e que sempre desaparece na tentativa de formaliza-lo. Na sabedoria anárquica de Paul Goodman, encontramos a afirmação da impossibilidade da manutenção e perigo no desejo de eternizar o contato. Este é pathos faustiano que diz “Fica, eras tão belo” (Gestalt-terapia, PHG p. 226), mas se fica, não se esvai e não da margem para o novo. O novo pode brotar-se do mesmo, e no mesmo constituir-se como reformação. O mesmo pode brotar-se do novo, e no novo se ajustar.
            Sendo assim, o trágico passa a se constituir como a mais bela forma de manifestar a potencia do humano. Nietzsche não hesitou em acusar a nossa sociedade conceitual de apática e (ao mesmo tempo) inquisidora. O avanço do pensamento socrático destituiu do homem a capacidade de transfiguração do mundo e, por que não dizer, do seu contato primário com a facticidade e com a vida. Ao transpor a estética da arte do canto trágico para o conceito e para a metafísica, nós não perdemos só uma forma de arte, mas sim, uma forma de compreender e viver a vida. “O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto chamei de dionisíaco, isso entendi como a ponte para a psicologia do trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, Não para purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente descarga – assim o entendeu mal Aristóteles - mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir a ser – esse prazer traz em si também o prazer no destruir... (Ecce Homo, Nietzsche, p. 64)
            É no dionisíaco que há a chave para o humano, é no eterno retorno e no pathos do vivido que podemos de fato encontrar a dimensão do que realmente interessa: o dia e a noite como formas de afirmação do cotidiano. É no começar e deitar de cada dia que a diversidade se manifesta. É porque sempre há o novo do novo que o desejo pode se caracterizar com suas mais variadas máscaras. Essa é a arte do vivido, o artista da própria vida: a poesia do falar de si para o outro, a musicalidade do dizer e a pintura da alma. “Para o artista, naturalmente, a técnica e o estilo são tudo: ele sente a criatividade como seu excitamento natural e seu interesse pelo tema (...), mas a técnica é sua maneira de moldar o real para que seja mais real (...) o estilo é ele próprio, é o que exibe e comunica” (Gestalt-terapia, PHG, 200-201).
            Eis o porquê que o campo relacional é arte. Toda arte marca e constitui uma segunda voz do canto do mundo. A sutileza do traço é como a harmonização das notas: elas só encontram a perfeição no que fere a neutralidade e o status quo.
            Fazer ciência do encontro é tentar tatear no escuro. É tentar dar nome àquilo que escapa e que se esconde por de trás do vivido. É a falácia do Apolíneo. Nenhuma experiência significativa se fez na cientificidade. O “eureca” é um estado da arte e só depois se transforma em conhecimento. A maçã de Newton foi, antes de mais nada, uma emoção.
            Se apreendemos o discurso prático-teórico na derrubada do discurso da arte, em que pé podemos pensar o campo psicoterápico? É justamente na contramão deste discurso. É no ethos do acolhimento ao que escapa e na estética da produção criativa que podemos dar estatuto de autoridade ao que nos mobiliza e nos torna vivos. A psicoterapia é sempre um risco social, como nos diz Goodman, e o campo de tresvaloração de todos os valores (Nietzsche). É, no tatear da conquista de aos poucos (re)constituir-se, que podemos encontrar a voz de uma ação significativa em relação ao sujeito. Sujeito ao seu desejo e a sua virtualidade. E agora, no campo do vivido, o pathos faustiano retorna não mais como o impedimento do fechamento, mas como a construção de uma marca biográfica que jamais poderá ser apagada. E é na reconstrução da história que podemos achar as faíscas da clínica.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E na cidade virtual e sem lei, novamente o preconceito


Segundo os principais jornais, o cancelamento da prova do ENEM dos alunos no colégio Christus tem sido utilizado mais uma vez como fonte de xenofobia aos nordestinos. Mais uma vez a nossa região pede um posicionamento político, e esse posicionamento não é pedir às "autoridades" que nos defenda. Podemos criar leis que nos protejam, podemos criar normas que nos salvam e nos asseguram que aqueles que estão agindo com preconceito serão punidos. Porém, as redes sociais são a manifestação da nova calada da noite, os gatos são pardos em becos digitais e por isso, o preconceito pode sussurrar em aguas que os navegadores encontram o abismo do fim do mundo ou as serpentes marinhas. A internet alcança o inalcançável e se auto-regula a partir de leis que a moralidade não compreende. A lei quer alcançar a internet, mas ela sempre está um passo a frente. Precisamos aprender a nos reorganizar no campo digital, pois é no universo sem lei que a verdadeira política emerge. Não sei se a internet pede a delicada mudança da foto no perfil para protestar contra o abuso sexual, ou as correntes que juntam dinheiro. Pra mim, ela pede armas e tochas, fogo e agressão, tal como uma cidade pirata que se esconde no meio dos mares.
Temos falado sobre wallstreet, sobre a crise na Grécia. Temos falado sobre a transformação do ensino superior a partir do PROUNI, do FIES e do ENEM.  A queda do capitalismo parece cada vez mais próxima de acontecer, e os dois polos da moralidade se tornaram ídolos que a qualquer momento podem ruir: a política e a educação.
Talvez por isso esses pontos tenham sido os grandes focos do pensamento de Paul Goodman. Em “Drawing the Line Once Again”, Paul Goodman fala que lutamos pela liberdade, mas não sabemos o que fazer com ela. A liberdade é um conceito moralista, advindo do iluminismo mas tomando todo seu fôlego nas graças do capitalismo. Queremos ser livres pra que? Precisamos do nosso ancoramento congênito, como diria Merleau-Ponty,  e com isso ver a liberdade como uma mera construção metafísica (tal como nos disse Paul Goodman). Ao contrário disso, há a implicação, a orientação a partir do mundo, um mundo que nos ultrapassa.
Os filósofos cínicos, os cães  tal como Diógenes de Laércio, invadiam os espaços para falar verdades aos outros e procuravam garantir os espaços para o Parricídio, para dar lugar ao que nos escapa, ao estranho e ao desviante. Não seria a internet a atualização desse espaço? Somos confrontados com um novo meio de comunicação que invade nossas casas e não nos pede licença de como vai nos chocar. A internet é o espaço da virtualização, sem lei e sem forma já dada. Será que a revolução política não se esgueira por esses caminhos? Será que o anarquismo não já perpassa as vielas de um mundo sem chão? Será que no futuro vamos ver que todas as querelas políticas do primeiro mundo não escondiam um jogo muito mais marcante por detrás das telas dos computadores?
Por isso retomo a xenofobia. O preconceito que continua sendo abafado pelas leis e pelo estado, se pronuncia no baile de máscaras virtual. Na terra de ninguém, tudo pode se manifestar na magnitude que de fato existe. E aí, só quem pode construir uma ponte para a revolução é o próprio homem, sem pai, sem poder e sem certezas. Nós nordestinos temos construido nossa libertação, e temos um instrumento claro de voz, nem que seja pelas letras espalhadas nos espaços da cibercultura. Aqui posso manifestar claramente o meu repúdio pela xenofobia, pelo absurdo do preconceito e usar desse espaço pra chamar para a microrevolução. Goodman dizia que toda revolução tem que acontecer a partir dos pequenos grupos, para com isso crescer.
 E pra dizer que não falei de flores, vos convido: vamos cavalgar em rastros digitais e apontar o dedo na cara do preconceito. Vamos denunciar a pólis e rir e dançar na moralidade sombria e hipócrita. O nordeste tem todo o potencial para o mundo, fomos, somos e seremos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Reflexões


Ultimamente tenho me mantido silencioso no Blog. Os dias tem me atravessado de uma maneira muito intensa  para poder sentar e escrever, porém por mais atribulado os dias, tenho percebido o quanto eles têm sido produtivos para um fervilhão de idéias. Preciso ainda sistematizá-las, mas principalmente, preciso verificar mais. Tenho percebido na carne que os melhores lugares pra pensar e reconstruir concepções é na clínica e na sala de aula. Por mais óbvio e clichê que isso seja, a clínica tem se reconstruído a cada dia a partir de seus braços e linhas invisíveis.
Temas que quero desenvolver:
- Cada vez fica mais clara pra mim a cisão de Goodman e Perls, tenho lido mais Goodman ultimamente. Paul Goodman foi um excelente crítico da educação e proclamador da anarquia, quero ainda escrever sobre o quanto que essas idéias podem ser potencializadora de nossas práticas psicológicas, pois sua concepção de clínica era realmente revolucionária.
- Tenho pensado sobre os meandros da clínica psicoterápica: modos de afetação, construção de vínculos e a técnica gestáltica. Tenho me dedicado a (re)ler a técnica gestáltica, e isso pra mim está se tornando realmente um nó problemático, pois a ação clínica gestáltica é múltipla. Eis a virtualização da técnica.
Acho que ainda preciso amadurecer mais essas idéias. Por isso mesmo acredito que eu tenho que escrever....

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou


Minha relação com a música sempre foi mal resolvida. Talvez por isso eu nunca tenha me desprendido (e na verdade nunca quero me desprender) do fundo estético que me acompanha até hoje. A música tem o poder de encravar afetos na carne sem pedir nenhuma licença. Ela não precisa de código de ética, de técnica nem de teoria, ela simplesmente se manifesta e é. Pode causar asco, riso, saudade ou desejo, mas poucas passam impunes por ela. 


Uma vez já me perguntaram porque, então, eu não faço musicoterapia ou coisas desse tipo. Pra mim são duas coisas completamente diferentes, e tentar resolver um conflito pela institucionalização é mais uma forma de retirar o status criativo que a música me deixou: uma saudade longínqua, um inacabamento atual e um sentimento potente.

Hoje eu resolvi voltar a escrever sobre outras coisas, outros mundo que me atravessam. Esses dias, ouvi bastante o último disco do Cazuza “Burguesia” (o último em vida). Nas primeiras vezes que ouvi as músicas desse disco, elas pareciam intragáveis. Métricas mal feitas, melodias pouco cantados, guitarras estaladas e uma mixagem feita nas “coxas”. Aos poucos fui digerindo o que as músicas queriam dizer e o sentido “´ético” que atravessavam aquelas canções. Pra mim, o Burguesia é um último grito de imortalidade que se pode dar, e a urgência que a vida o impusera criar.

Certa vez vi circulando na Internet um texto de uma psicóloga falando do absurdo que era a adoração ao Cazuza. Para ela, ele é uma péssima influência para as nossas crianças. Pra mim, um grande absurdo é alguém se dar ao trabalho de escrever algo assim. Cazuza não foi nada além de humano, de tal forma que, em nossa humanidade, transgredimos todo construto da moralidade. Também não quero fazer uma apologia à dizer que ele viveu com toda a potência que poderia, pois sinceramente eu não sei. Só sei que ele sofreu, errou, riu, chorou como qualquer outro ser humano. Escreveu e conseguiu imprimir na história da música brasileira a sua marca, e isso pra mim é o fundamental.

Acredito que toda sua obra carrega a multiplicidade do que ele gostaria de dizer. Sejam nas palavras fortes da primeira música do primeiro disco do Barão  “Você sem texto nem cinema/ Não faz do sexo um problema/ Eu armo uma cena, é, eu armo uma cena! / Quebro garrafa/ Morro de chorar/ Ma ainda te faço dar” (Posando de Star) ou na sutileza de “Todo amor que houver nessa vida”, Cazuza “mostra a sua cara” sem nem mesmo saber qual era ela. Talvez por isso entoa que vai “Pagar a conta do analista, pra nunca mais ter que saber quem eu sou” (Ideologia).

Suas músicas são pratos cheios para os terapeutas, que podem encontrar a nitidez (ou não-nitidez)  de seus conflitos quando diz “Você nunca sonhou/ ser currada por animais? / Nem transou com cadáveres? / Nunca traiu seu melhor amigo?/ Nem quis comer a tua mãe? / Só as mães são felizes” (Só as mães são felizes) ou “Você tem que entender / que eu sou filho único/ Que os filhos únicos são seres infelizes / Eu tento mudar / Eu tento provar que me importo com os outros/ mas é tudo mentira” (Filho único). Ele escrevia com desejo, pra chocar, pra provar sua posição.

 Algo que sempre me chamou atenção foi a posição religiosa que Cazuza assumiu, às vezes com uma conotação meio atéia, mas sempre mostrando a sua ambigüidade: “ Agradeço por ter desobedecido / Por ter cuspido no teu altar sagrado / E por saber que nunca vou ter fé / E vou rir só com um canto da boca” (Eu agradeço). Escreve também, junto com Gilberto Gil: “Estranho o teu Cristo, Rio/  Que olha tão longe, além / Com os braços sempre abertos / Mas sem proteger ninguém” ( Um trem para as estrelas). Mas mesmo assim, encerra sua vida dizendo “Eu sou assim com essa voz desafinada / Peço a Deus que me perdoe no camarim” (Quando eu estiver Cantando).

Na verdade ele não ficou calado. E por isso retorno ao “Burguesia”, pois mesmo completamente debilitado, ele ainda queria se imortalizar. Queria deixar a sua marca no mundo. Meio egoísta sim, mas não acredito que nenhum escritor, poeta ou compositor também não sinta esse amargo embaixo da língua.
Sempre gostei da música direta, sem frescura, sem rodeios.  A música que toca por que diz de cada um. Três ou quatro acordes, pouca modulação, a voz fraca e as vezes desafinada, mas com vigor por que defende o que faz. Quando Cazuza não conseguia mais cantar por causa da doença, declamava, desafinava. A voz rouca não deve agradar o ouvido de muitos que não entendem a estética da expressão.

É a beleza do “beijo da boca do luxo na boca do lixo”(Balada de um Vagabundo).

domingo, 8 de maio de 2011

Sobre a Autenticidade na Relação Terapêutica


O que de fato significa o terapeuta ser autêntico no processo terapêutico? Essa questão sempre me trouxe muitas duvidas e dificuldades. Para mim, essa questão se torna extremamente complexa dentro do setting terapêutico, pois o que tem se feito em nome da autenticidade pode muitas vezes ferir a ética, a moral e a própria compreensão do que é o objetivo da psicoterapia na abordagem gestáltica.
Ao contrário do que muitos pensam, o próprio Fritz relutou na mudança do divã para a terapia cara a cara. Mesmo já tendo rompido com a psicanálise clássica, Perls ainda utilizava o divã como um instrumento de sua práxis terapêutica. Somente depois de alguns anos, passou a fazer a terapia “olho no olho” que tanto é elogiada na leitura humanista de modo geral. Já Laura Perls, como sua formação psicanalítica em muito foi atravessada pela técnica ativa de Ferenczi, e por sua formação filosófica nas filosofias do diálogo (Buber e Tilich), já desde o início aderiu à psicoterapia cara a cara como forma de trabalhar a relação dialógica e o vínculo com o cliente.
A partir do desenvolvimento da abordagem, a gestalt-terapia insere no campo da psicoterapia recortes que muito não se assemelham com a psicoterapia convencional verbal: com as influências de Reich e Lowen, ela adere ao trabalho com o corpo no processo terapêutico; com as influências da dialogicidade, ela tenta pensar a relação terapêutica para além do vínculo transferencial; com o psicodrama e a teoria de campo, a gt busca a ação no processo.
Toda essa mudança insere uma postura diferenciada do terapeuta, o que o coloca, muitas vezes, em uma posição que pode ser entendida como vulnerável. A idéia clássica de que tudo é possível na relação terapêutica desde que seja sustentada, cabe aqui perfeitamente.
No Gestalt-terapia de 1951, um dos tópicos abordados por Goodman, é a derrubada da dicotomia clássica infantil X maduro. O desenvolvimento de uma sociedade neurótica assumiu que a experiência espontânea é irresponsável e adoecida. O que é visto como correto e como ajustado é o comportamento comedido e controlado. Ora, se a neurose é o excesso de repressão e a perda da função de ego, ou seja, a redução da espontaneidade do ato no fluxo do contato, a mesma noção deve ser aplicada ao contexto psicoterápico.
Como posso não buscar a minha espontaneidade como terapeuta se eu entendo que reprimir a espontaneidade é o processo de adoecimento? Esta incongruência é básica para se entender o processo de autenticidade em psicoterapia. Se eu atrelo à saúde o fluxo harmônico do self, eu, enquanto terapeuta também devo buscar o mesmo na relação.
Porém, ressalto aqui que o espontâneo nada tem a ver com o irresponsável. Em momento nenhum perdemos nosso lugar de terapeuta e o nosso papel na relação. Se Perls bocejava, ria e tocava seus clientes, tudo isso era usado na potência da terapêutica. E isso é o que temos que sempre ter claro: a minha espontaneidade não pode servir para encobrir o objetivo da abordagem, ou seja, não posso usar minha espontaneidade para aplacar a ansiedade do cliente.
O meu papel como terapeuta é justamente possibilitar a emergência da ansiedade do cliente em uma situação experimental segura, e ao invés de aplacá-la, devo dar suporte para que ele possa vivenciá-la. Ser espontâneo, não é transformar a relação terapêutica em uma troca de histórias de vida. Já ouvi pessoas “compartilharem” suas histórias de vida com cliente com o objetivo de aplacar a ansiedade dele, algo do tipo: “isso acontece com todo mundo”, “não se preocupe que isso passa”. Aí sim fugimos do que se propõe a psicoterapia. Posso até usar minha história no processo, mas não como uma lição de vida, um exemplo ou algo para o cliente “se acalmar”.
Devo aprender a usar minha autenticidade dentro do trabalho terapêutico. A intervenção terapêutica não nasce somente do conhecimento teórico que perpassa minha história. A intervenção nasce do modo como sou requisitado a participar do campo terapêutico, é por ser descentrado pelo “outro” que atravessa o campo, que posso buscar agir sobre ele. É por ser espontâneo e permitir ser atravessado pelo “outro” que posso criar intervenções.
Eu entendo como sendo essa a base da autenticidade na abordagem gestáltica. A autenticidade não se mistura com irresponsabilidade, e aí lembro das palavras de Fernando de Lucca: “Ousadia e responsabilidade”, pra mim, essa sim é a base da ação gestáltica.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Manifesto em prol da Teoria Gestáltica (reformulado)



“A prática da psicoterapia é diferente da teoria, na prática as coisas não são como nos livros”. Professei por deversas vezes esse absurdo. Uma formação “humanista,  me emprestou uma série de jargões: “ A suspensão fenomenológica  – abrir mão dos aprioris para compreender o cliente tal como ele se apresenta “; “Compreender o cliente tal como ele é, e por isso não interpretar ou teorizar sobre ele”; “ Sendo o homem um eterno devir, não podemos enclausurá-lo em uma teoria”.

Sempre fiquei muito incomodado com essas colocações, pois, de fato, elas se tornavam incompletas. Estas posturas não me respondiam o porquê da necessidade da criação de conceitos, não me respondiam o porquê da incompatibilidade entre o que de fato era fenomenologia e o que essas abordagens indagavam. Elas não respondiam o que é esse “outro” que tanto devo buscar compreender, e como que é possível compreendê-lo (tenho me dedicado a esse tópico ultimamente, quero depois escrever mais sobre isso).

Continuo acreditando que a relação terapêutica não é um espaço de teorização, mas não que ela seja “ateórica”. Em gestalt-terapia, Perls e Goodman nos mostram a teoria por trás da não teorização, ou seja, a intenção que se faz presente no “ato” terapêutico. A psicoterapia não é uma ação solta, não é somente um mero encontro humano.

Ela se faz como encontro, mas busca algo, busca uma fuidez do self, busca uma postura diferenciada do psicoterapeuta de buscar formas de awareness. A construção de um campo clínico não é algo fácil, e por isso precisa de prática, estudo, treino e dedicação.
Quando dizemos que na relação terapêutica encontramos um só sistema self, que ali não se trata de duas pessoas, mas de um campo clínica que se atualiza, há, implícito nessa compreensão, toda uma leitura fenomenológica da relação, e por conseguinte, toda uma compreensão gestáltica do que é o homem e o mundo. Digo não ao fantasma criado por trás da dicotomização teoria e prática. Se a teoria não serve na prática, está na hora de jogá-la fora. Estamos a séculos lutando contra o prejúizo grego de diferenciação entre teknhé e episteme, e a psicologia de forma geral ainda é uma das grandes difusoras dessa dicotomia. 
Acho estranho que tanto seja dito que a gestalt terapia é uma abordagem plástica, e que por isso sua epistemologia pode ser transformada. Ouço que a gestalt-terapia não precisa de teorização, mas ao invés disso, muitos se enchem de filosofias como Nietzsche, Sartre, Buber, Heidegger, filosofias orientais, ou o que eu acho mais estranho,se apropriam de Winicott, Rogers, Binswanger, Boss. Eu sempre me questionava: se eu acredito que a abordagem centrada na pessoa cabe na GT, porque não sou rogeriano? Se acredito tanto na leitura heideggeriana, porque não faço daseinsanálise? Às vezes, me agarrei tanto no discurso fenomenológico existencial da minha abordagem, que não me dei conta da imensa baixa auto-estima que me atravessava, precisei me encher desses filósofos por não acreditar no que eu entendo como a abordagem que trabalho em minha prática clínica.
Reconheço isso, mas também reconheço agora a beleza e profundidade dos escritos de Goodman e Perls. Se Goodman escreveu o Gestalt-terapia como um ensaio, se Perls misturou sua prática com sua vida pessoal, não sei, só sei que suas idéias, pra mim, fazem sentido. Ainda quero estudar muita filosofia, ainda quero articular GT com outros saberes, mas não quero elimar a gestalt-terapia dessas articulações. Quando leio Merleau-Ponty, por exemplo, vejo não só a genialidade desse filósofo, mas reconheço quanto que Goodman pode ser pensado junto com essa filosofia, porém, sem eliminar a genialidade de Goodman.  

Escrevo em prol da restituição da teoria da Gestalt-terapia, mesmo que seja para jogá-la na lata do lixo. Que teorizemos e estudemos muito sobre não teorizar. Que cada vez mais possamos saber e compreender porque não teorizamos na ação clínica, mas que possamos reconhecer que essa atitude tem uma base sólida e bem construída.

Se na prática a teoria não cabe, ou temos uma teoria fraca, ou uma prática mal feita.