terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

;SOBRE A FORMAÇÃO E TITULAÇÃO DO PSICÓLOGO


Mesmo com a divisão em ênfases, a formação do psicólogo é considerada generalista. Sendo assim, ninguém sai da faculdade com qualquer titulação extra além daquela que o defina como psicólogo. Para se considerar “psicólogo clínico”, “psicólogo hospitalar”, “psicólogo social”, etc. é necessário que o profissional possua formação ou especialização na área (variando de acordo com a área). Para o psicólogo clínico, por exemplo, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), pede que ele possua um curso de capacitação ou especialização de mais de 400 horas na área e que tenha pelo menos quatro anos de experiência profissional. Lembrando que, segundo o nosso código de ética, é considerada uma atitude anti-ética quando o profissional afirma possuir titulações que ele não tem.
No que diz respeito à abordagem teórica do profissional, não existem regulações oficiais sobre essa questão. Algumas abordagens possuem associações ou grupos que regulamentam os processos formativos, porém, não existem legislações específicas sobre isso. A única que possui algo do tipo, é a formação do psicanalista, que, também segundo a Classificação Brasileira de Ocupações, se configura como uma formação a parte ou paralela a do psicólogo. Para ser psicanalista, é necessário ter um curso de formação de no mínimo 400h e, no mínimo 5 anos de experiência profissional na área. Ou seja, qualquer profissional (mesmo psicólogo) que queira afirmar-se como psicanalista deve cumprir esses dois quesitos: o da formação e o do tempo de experiência.
Nas outras abordagens, é consenso geral que o profissional deva se submeter a formações ou especializações específicas. Assim, para intitular-se “Gestalt-terapeuta”, “analista do comportamento”, “psicodramatista”, é fundamental que o profissional tenha passado por esta capacitação, que varia de estilo e carga-horária de acordo com a abordagem e os vários cursos no país.
Por último, o conselho federal de psicologia (CFP) juntamente com a Associação Brasileira de Ensino em Psicologia (ABEP), autoriza determinados cursos a emitir a titulação de especialista, como é o caso da especialização em psicologia clínica, com tanto que esses cursos obedeçam a critérios, como por exemplo, o da carga horária do curso (mínimo de 500h) e que tenha prática supervisionada. O CFP juntamente com a ABEP são responsáveis por autorizar e vistoriar esses cursos em todo o país. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Feliz dia dos Professores


Todo gesto, seja verbal ou corporal, só se repete ao ser esquecido.
Cada palavra dita veio de um caminho aprendido, integrado e por isso mesmo, não precisamos mais de sua gênese para repeti-lo. Não preciso pensar para emergir do meu corpo cada movimento e cada motricidade que reconstrói na atualidade toda a presença de meus mestres. O que eu ouço, o que vejo e o que sinto, são apreendidos em uma dimensão alargada que não deixa de se inscrever em cada ato, e que caminham para um futuro que ninguém jamais pode prever. Até hoje, me pego repetindo jargões, posições críticas, formas de pensar que aprendi dos inúmeros encontros que tive na minha vida. Se eles aparecem em mim de forma espontânea, é porque de fato foram significativos.
E é porque eu posso repetir meus mestres que eu posso criar. É porque seus ensinamentos se tornaram em mim espontâneos que eu posso transmitir um novo.
Por isso que ao me comprometer com o ofício de ensinar, junto me subjaz o desejo de ser esquecido. Ao ser uma memória, a tradição dos gestos que me acompanham só será acessível ao pensar, mas ao ser esquecido, minha tradição se concretiza no hábito de cada um.
Esse é o verdadeiro ofício da educação: construir a ponte para a novidade, e o novo só se faz no desprendimento do velho.
Feliz dia dos Professores a todos!

domingo, 26 de agosto de 2012

Frustrar-se e suportar: ensaio sobre a clínica da neurose


O lugar do gestalt terapeuta não é o de compreensão. Na verdade, o lugar do clínico é de frustrar-se do lugar de compreensão e acolher o lugar da criação. É só porque podemos aceitar e suportar o lugar do descentramento (tal como proposto pelo casal Muller-Granzotto em seu novo livro Psicose e Sofrimento com base em Merleau-Ponty), que podemos nos investir do salto em relação ao limite da neurose. O lugar da neurose, esse sim é o lugar do entendimento. A neurose, como uma construção recente da humanidade (a antropologia da neurose de PHG), é a tentativa de significar e dar nome a uma formação da segunda natureza. Por isso que o ato inibitório é também o lugar de tentar nomear uma cena que poderia justificar tal ato (por isso que a cena traumática sempre aparece no campo da fantasia).  
Assim, o que o clínico ouve não é a construção biográfica do cliente, mas sim, o lugar que o cliente quer que o terapeuta ocupe (ou seja, tal como Perls, trabalhar os aspectos manipulativos da relação). Essa é a evitação própria da neurose: ocupar o semelhante em um lugar específico, pois essa é justamente a estratégia de evitação do descentramento. Se o que eu posso assegurar de mim só se faz na intersubjetividade, eu preciso cristalizar outrem para manter a minha segurança. Aí temos o porquê da frustração como recurso clínico: ao não assumir esse lugar, estou suportando o caminho da criação.
Isso nos possibilita olhar para o campo da evitação (neurose) a partir de três premissas:
i)             Tal como PHG nos mostra, o que o cliente não consegue fazer é relaxar e não censurar. Na verdade, a situação clínica sempre pede que o cliente ataque e tente destruir o clínico. Isso porque, frente à ansiedade, o cliente só encontra duas formas de proteção: atacando o próprio corpo (discutiremos o corpo a seguir) ou o semelhante (o terapeuta). As duas formas são medidas de segurança para impedir o encontro com outrem (porém, uma ação sempre em vão).
ii)            A ansiedade é o resto que sobra de toda investida contra o corpo. Porém, apesar da pouca clareza de Goodman sobre o tema (recorrendo a Reich e a Lowen para entender a corporeidade) podemos reinterpretar o corpo como o “lugar” da natureza (animalidade) e da segunda natureza (a formação dos hábitos). Assim, a proteção é contra toda forma de excitamento que surge e que tenta deslocar o já estabelecido. Por isso, metaforicamente, a ansiedade é a “febre” do campo experiencial, ou seja, é uma forma de proteção a todo corpo estranho. O ato inibitório nada mais é que um hábito aprendido como resultado de uma necessidade inacabada. Sendo assim, o que é retido não é o conteúdo referente à experiência, mas o modo (ou o como) que a experiência foi impedida. Desta forma, o cliente aprende a defender-se de um novo jeito e aplica essa forma de defesa às relações de campo. Uma nova teoria do corpo (o aporte Merleau-Pontyano proposto pelo casal Muller-Granzotto, por exemplo) pode nos ajudar a reconstruir a dimensão corpórea da gestalt-terapia (que precisou situar-se na discussão Reicheana).
iii)           Insistimos na idéia de reler a intervenção terapêutica da clínica da neurose proposta por Perls a partir da díade Frustração e simpatia (ou suporte). Frustração é antes de qualquer coisa frustrar-se. Frustrar-se de:
a)    Se colocar no lugar compreensivo e de entendimento, como o de alguém que é capaz de abarcar o conteúdo da ambigüidade do outro. Não há lugar, na intervenção clínica da evitação, para produzir um saber sobre o cliente (ou na ótica psicanalítica – Quinet – o discurso histérico). Precisamos ressaltar que a intervenção clínica da evitação não se confunde com o tempo cronológico da sessão, ou seja, o cliente e o terapeuta podem tentar produzir um saber sobre o sintoma, mas esta não será uma intervenção no campo da evitação. O propósito da clínica gestáltica não é o da ressignificação da experiência, mas sim, o da resignação à experiência.
b)    Enquadrar o cliente em um lugar já sabido (neurótico, retroflexivo, compulsivo, etc).
c)     Também o clínico deve frustrar o lugar em que é convidado a participar pelo cliente (modelo, professor, réu, etc.)
Dessa forma, frustrar é também suportar o lugar de descentramento. Somente ao suportar esse lugar, podemos convidar o semelhante a participar dele. O cliente e o terapeuta conseguem, por meio da frustração e do suporte, se encontrar no lugar da criação e do ato (função de ego). Só assim podemos de fato alcançar o propósito da clínica gestáltica: o lugar da criação.

domingo, 12 de agosto de 2012

Alice


Não é só a beleza de um sorriso, mas poder acompanhar uma vida. Tive muitos presentes na minha vida (e acolho também a ambigüidade dessa frase) mas nenhuma presença tão intensa quanto da Alice. Ela carrega meu sangue: o que de mim me faz vivo; ela carrega de mim o meu nome: o que de mim me faz história; ela carrega o meu cuidado: o que de mim me faz pai.

A maternidade e a paternidade são as experiências mais compartilhadas e mais solitárias, pois ninguém vai poder me ensinar a ser Pai da Alice. Da mesma forma que ninguém vai poder ensinar a ser mãe dela, pois ninguém teve o coração tão perto do da Alice, e por isso, ela é a única que sabe ser a melhor mãe do mundo.  Posso aprender com as palavras, com os gestos e com os erros dos outros, mas só com ela estou podendo aprender a viver o que é o sabor de cada segundo vivido nesse lugar. Eu não sei explicar o que é poder começar a viver por gerações e a responsabilidade de querer que alguém se orgulhe de um nome: talvez, isso tenha sido uma das coisas que eu aprendi com mais força do meu próprio Pai. “o que fazes sem pensar aprendeste do olhar, e das palavras que guardei pra ti”

Não vou mentir: me dá medo. Talvez a maior prova da ambigüidade da minha vida: Como posso de mim gerar uma mulher? Esse é talvez o meu maior espanto! Pude e posso acessar em meu mais profundo íntimo aquilo que eu tenho de mais público, o que no meu gesto se funde entre a minha historicidade e meu corpo: todos os masculinos e femininos que pude viver. Assim, “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher, sou minha mãe, minha filha, minha irmã, minha menina, mas sou minha, só minha e não de quem quiser. Sou Deus, tua deusa meu amor”.

O grande mistério de amanhã é saber o que de novo vai gerar em mim o teu sorriso, o que de novo vai gerar em mim o teu olhar, e para onde nós vamos poder olhar juntos. Todo cuidado é pouco e (h)aja coração! “Vamos descobrir o mundo juntos, quero aprender com o teu pequeno grande coração, meu amor, meu amor...”
Alice, te amo.
Se torno público é porque um dia quero ler isso contigo.


domingo, 15 de abril de 2012

A teoria do self gestáltica: entre a fenomenologia e o pragmatismo

O livro Gestalt-terapia de Perls, Hefferline e Goodman de 1951 teve sua parte teórica construída a partir dos esboços teóricos de Fritz Perls relidos e aprimorados pelo escritor e crítico social Paul Goodman. O objetivo de Goodman foi apresentar, a partir das discussões iniciais de Perls, uma nova proposta de compreensão da natureza humana que integre a escola gestáltica e as teorias neo-psicanalíticas. Porém, como ferramenta crítica para essa análise, Goodman propôs uma integração da fenomenologia de Husserl e do Pragmatismo de John Dewey para recriar a concepção de self dentro da perspectiva da gestalt-terapia. O objetivo deste trabalho é apresentar o modo como Goodman vai interpretar a fenomenologia a partir de uma leitura pragmática para propor a noção de “sistema-self” como o sistema de contatos que se manifesta no campo organismo/ambiente. Sendo assim, essa leitura pragmatista da fenomenologia vai possibilitar dois pontos fundamentais: 1) ao invés de uma compreensão transcendental do ego (tal como proposto por Husserl), ele vai propor uma análise exaustiva das estruturas parciais do self, a saber o id, o ego e a personalidade. Estas estruturas parciais são entendidas como diferentes pontos de vista (ou perfis) para analisar a experiência, sem precisar recair em uma compreensão dicotômica ou psicologista. E 2) uma interpretação da ideia de contato já cunhada por Fritz Perls em seu livro anterior a partir da leitura fenomenológica da temporalidade. Sendo assim, o fenomenológico da abordagem gestáltica, nessa compreensão, não seria a construção de um método terapêutico, mas sim a base para se pensar a dinâmica do self e suas estruturas parciais. A partir da lente pragmática, há a desconstrução da busca pelo fundamento do conhecimento tão cara a Husserl para que se possa apreender a dinâmica constantemente transformadora da experiência humana e aplica-la ao campo da psicoterapia, da educação e da política. Como conclusão, acreditamos na pertinência dessa teoria, e que a teoria do self gestáltica, por mais que não tenha sido suficientemente reconhecida pela comunidade dos gestalt-terapeutas, pode ser uma ferramenta essencial para a construção da teoria e prática da abordagem gestáltica nos vários campo de atuação do psicólogo.

Este é o resumo do trabalho que será apresentado no EFHEP:
Encontro de Filosofia, História e Epistemologia da Psicologia
www.efhep.com
Será dia 19/04 no auditório A4 da UNIFOR!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Da estética e da ética do (campo) relacional

            Muitas foram as tentativas de tornar científico o campo da relação. Se há algo de sublime no humano, o campo das relações jamais poderá ser resumido ao coerente. Muito pelo contrário, o campo do humano é o campo do ethos anárquico, da impossibilidade e da reconstrução. Toda forma de poética, pede um conflito intenso e pede a resolução (pelo menos parcial) de um problema. Um problema que sempre escapa e que sempre desaparece na tentativa de formaliza-lo. Na sabedoria anárquica de Paul Goodman, encontramos a afirmação da impossibilidade da manutenção e perigo no desejo de eternizar o contato. Este é pathos faustiano que diz “Fica, eras tão belo” (Gestalt-terapia, PHG p. 226), mas se fica, não se esvai e não da margem para o novo. O novo pode brotar-se do mesmo, e no mesmo constituir-se como reformação. O mesmo pode brotar-se do novo, e no novo se ajustar.
            Sendo assim, o trágico passa a se constituir como a mais bela forma de manifestar a potencia do humano. Nietzsche não hesitou em acusar a nossa sociedade conceitual de apática e (ao mesmo tempo) inquisidora. O avanço do pensamento socrático destituiu do homem a capacidade de transfiguração do mundo e, por que não dizer, do seu contato primário com a facticidade e com a vida. Ao transpor a estética da arte do canto trágico para o conceito e para a metafísica, nós não perdemos só uma forma de arte, mas sim, uma forma de compreender e viver a vida. “O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto chamei de dionisíaco, isso entendi como a ponte para a psicologia do trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, Não para purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente descarga – assim o entendeu mal Aristóteles - mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir a ser – esse prazer traz em si também o prazer no destruir... (Ecce Homo, Nietzsche, p. 64)
            É no dionisíaco que há a chave para o humano, é no eterno retorno e no pathos do vivido que podemos de fato encontrar a dimensão do que realmente interessa: o dia e a noite como formas de afirmação do cotidiano. É no começar e deitar de cada dia que a diversidade se manifesta. É porque sempre há o novo do novo que o desejo pode se caracterizar com suas mais variadas máscaras. Essa é a arte do vivido, o artista da própria vida: a poesia do falar de si para o outro, a musicalidade do dizer e a pintura da alma. “Para o artista, naturalmente, a técnica e o estilo são tudo: ele sente a criatividade como seu excitamento natural e seu interesse pelo tema (...), mas a técnica é sua maneira de moldar o real para que seja mais real (...) o estilo é ele próprio, é o que exibe e comunica” (Gestalt-terapia, PHG, 200-201).
            Eis o porquê que o campo relacional é arte. Toda arte marca e constitui uma segunda voz do canto do mundo. A sutileza do traço é como a harmonização das notas: elas só encontram a perfeição no que fere a neutralidade e o status quo.
            Fazer ciência do encontro é tentar tatear no escuro. É tentar dar nome àquilo que escapa e que se esconde por de trás do vivido. É a falácia do Apolíneo. Nenhuma experiência significativa se fez na cientificidade. O “eureca” é um estado da arte e só depois se transforma em conhecimento. A maçã de Newton foi, antes de mais nada, uma emoção.
            Se apreendemos o discurso prático-teórico na derrubada do discurso da arte, em que pé podemos pensar o campo psicoterápico? É justamente na contramão deste discurso. É no ethos do acolhimento ao que escapa e na estética da produção criativa que podemos dar estatuto de autoridade ao que nos mobiliza e nos torna vivos. A psicoterapia é sempre um risco social, como nos diz Goodman, e o campo de tresvaloração de todos os valores (Nietzsche). É, no tatear da conquista de aos poucos (re)constituir-se, que podemos encontrar a voz de uma ação significativa em relação ao sujeito. Sujeito ao seu desejo e a sua virtualidade. E agora, no campo do vivido, o pathos faustiano retorna não mais como o impedimento do fechamento, mas como a construção de uma marca biográfica que jamais poderá ser apagada. E é na reconstrução da história que podemos achar as faíscas da clínica.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E na cidade virtual e sem lei, novamente o preconceito


Segundo os principais jornais, o cancelamento da prova do ENEM dos alunos no colégio Christus tem sido utilizado mais uma vez como fonte de xenofobia aos nordestinos. Mais uma vez a nossa região pede um posicionamento político, e esse posicionamento não é pedir às "autoridades" que nos defenda. Podemos criar leis que nos protejam, podemos criar normas que nos salvam e nos asseguram que aqueles que estão agindo com preconceito serão punidos. Porém, as redes sociais são a manifestação da nova calada da noite, os gatos são pardos em becos digitais e por isso, o preconceito pode sussurrar em aguas que os navegadores encontram o abismo do fim do mundo ou as serpentes marinhas. A internet alcança o inalcançável e se auto-regula a partir de leis que a moralidade não compreende. A lei quer alcançar a internet, mas ela sempre está um passo a frente. Precisamos aprender a nos reorganizar no campo digital, pois é no universo sem lei que a verdadeira política emerge. Não sei se a internet pede a delicada mudança da foto no perfil para protestar contra o abuso sexual, ou as correntes que juntam dinheiro. Pra mim, ela pede armas e tochas, fogo e agressão, tal como uma cidade pirata que se esconde no meio dos mares.
Temos falado sobre wallstreet, sobre a crise na Grécia. Temos falado sobre a transformação do ensino superior a partir do PROUNI, do FIES e do ENEM.  A queda do capitalismo parece cada vez mais próxima de acontecer, e os dois polos da moralidade se tornaram ídolos que a qualquer momento podem ruir: a política e a educação.
Talvez por isso esses pontos tenham sido os grandes focos do pensamento de Paul Goodman. Em “Drawing the Line Once Again”, Paul Goodman fala que lutamos pela liberdade, mas não sabemos o que fazer com ela. A liberdade é um conceito moralista, advindo do iluminismo mas tomando todo seu fôlego nas graças do capitalismo. Queremos ser livres pra que? Precisamos do nosso ancoramento congênito, como diria Merleau-Ponty,  e com isso ver a liberdade como uma mera construção metafísica (tal como nos disse Paul Goodman). Ao contrário disso, há a implicação, a orientação a partir do mundo, um mundo que nos ultrapassa.
Os filósofos cínicos, os cães  tal como Diógenes de Laércio, invadiam os espaços para falar verdades aos outros e procuravam garantir os espaços para o Parricídio, para dar lugar ao que nos escapa, ao estranho e ao desviante. Não seria a internet a atualização desse espaço? Somos confrontados com um novo meio de comunicação que invade nossas casas e não nos pede licença de como vai nos chocar. A internet é o espaço da virtualização, sem lei e sem forma já dada. Será que a revolução política não se esgueira por esses caminhos? Será que o anarquismo não já perpassa as vielas de um mundo sem chão? Será que no futuro vamos ver que todas as querelas políticas do primeiro mundo não escondiam um jogo muito mais marcante por detrás das telas dos computadores?
Por isso retomo a xenofobia. O preconceito que continua sendo abafado pelas leis e pelo estado, se pronuncia no baile de máscaras virtual. Na terra de ninguém, tudo pode se manifestar na magnitude que de fato existe. E aí, só quem pode construir uma ponte para a revolução é o próprio homem, sem pai, sem poder e sem certezas. Nós nordestinos temos construido nossa libertação, e temos um instrumento claro de voz, nem que seja pelas letras espalhadas nos espaços da cibercultura. Aqui posso manifestar claramente o meu repúdio pela xenofobia, pelo absurdo do preconceito e usar desse espaço pra chamar para a microrevolução. Goodman dizia que toda revolução tem que acontecer a partir dos pequenos grupos, para com isso crescer.
 E pra dizer que não falei de flores, vos convido: vamos cavalgar em rastros digitais e apontar o dedo na cara do preconceito. Vamos denunciar a pólis e rir e dançar na moralidade sombria e hipócrita. O nordeste tem todo o potencial para o mundo, fomos, somos e seremos.