domingo, 22 de novembro de 2009

A - prender



Fui convidado para fazer abertura do I Simpósio de Aprendizagem da  Faculdade Leão Sampaio e esse foi o texto que fiz e li:

Ao receber o convite para fazer a abertura do simpósio sobre aprendizagem, eu fiquei pensando: “mas eu nunca estudei a fundo o tema, o que é que eu vou falar? Quais as expectativas que os participantes têm em relação ao que eu vou dizer? E os professores e organizadores?”

Passando o momento de expectativas eu me deparo com um fato simples, mas marcante: posso não saber teorias significativas sobre esse processo, mas sei o que é aprender, e estou aprendendo o que é ensinar.

Várias teorias me vêm nesse momento, mas prefiro suspendê-las e me perguntar experiencialmente o que é aprender. Sempre vejo as pessoas começando palestras com uma compreensão etimológica do termo. Sendo sincero, não faço a menor idéia de qual a etimologia de aprender, por isso vou inventar uma. Pode parecer bobo e infantil essa idéia, mas a infância não é um período fundamental da aprendizagem?

A – PRENDER - A significa não, então não prender, deixar fluir. Posso começar falando que eu aprendo quando deixo fluir, quando me permito desprender de regras e funções e me deixo viajar sobre o assunto.

Isso demanda tempo, reflexão, mastigar cada idéia e permitir que o “metabolismo mental” atue sobre elas. Eu acredito que um dos maiores perigos da aprendizagem é engolir o material inteiro, introjetá-lo, vendo-o como uma verdade universal e inquestionável.

Esse é o meu método, meu modo. Aqui eu entro no segundo ponto sobre o qual quero falar, aprender é um processo singular que deve ser cuidado e trabalhado. Na minha primeira aula sobre docência do ensino superior uma questão me subiu a garganta. Tanto se fala em como se ensina, criam-se cursos para professores, especializações, mestrados e doutorados. Mas quem ensina a aprender? Onde se mostra como podemos assimilar um conhecimento alienando o que não é interessante e integrando o que é interessante?

Agora me vem a teoria, esse é o conceito de contato na gestalt-terapia. Assimilar o que é assimilável e alienar o que é não-assimilável. Pode parecer simples e óbvio, mas a grande questão da neurose, como já nos disse Perls, é a incapacidade de ver o óbvio, ou mais, a incapacidade de experienciar o óbvio. De buscarmos, nós mesmos, integrar o que nos interessa, e não esperar que alguém venha nos empurrar goela abaixo (a mãe, o pai, a sociedade, o professor e etc.).

Aprender é uma arte tão interessante quanto ensinar, é também dialógico, nos permite acessar isso que é outro, que da linguagem se faz desconhecido. Permite o encanto em relação ao novo, permite a mudança e permite paradoxalmente nos tornarmos aquilo que já somos: puro potencial criativo.

É ver o mundo com interesse e com disposição a mastigar nossa relação mundana e nos permitir co-construir o mundo. Rogers e Paulo Freire (cada qual no seu modo singular) sempre enfatizaram o processo dialógico da aprendizagem, o que muitos exigem, sem levar em consideração o fator autonomia. Aprender é querer aprender. Cada um é responsável pelo seu processo, e co-responsável pelo do outro (como sempre nos lembra Levinás).

É por isso que também, aprender é se disponibilizar ao outro, se permitir aprender e a ser aprendido. Chega do imperativo que dita regras sobre nossa aprendizagem, mas lembremos que somos senhores do nosso processo e construtores das nossas relações, vamos ser humildes e aprender a aprender. Vamos buscar a maturação e o desenvolvimento através de nossa autonomia, mas sem perder de vista a responsabilidade pelo outro. Para fechar esse texto, quero ser óbvio e piegas. Não vou citar Nietzsche, ou Heidegger, ou Lévinas, mas sim alguém que desde criança eu ouço e a cada dia tento aprender: “sois eternamente responsável por aquele que cativas” (Saint-Éxupery)

3 comentários:

  1. Marcus o texto é simplesmente perfeito!
    e veio como uma luva na abertura do simpósio, ajudou muita gente a "não-prender" e fazer com que as apresentações fossem mais tranquilas. OBRIGADA :)

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  2. Marcus,
    Não estive presente neste simpósio, mas posso dizer que ouvi sua voz "sendo" um pouco deste texto.
    Espero que esteja bem.
    Abraços,
    Mariana

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  3. Maria Laís dos Santos Leite20 de abril de 2010 13:30

    Marcus me emocionei a ouvi-lo e agora ao le-lo...Duvido que alguém fizesse uma abertura mais coerente para a apresentação de trabalhos que podemos nos auto-gerenciar, inovar, "se jogar"!
    Parabéns e obrigada!

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